terça-feira, 17 de abril de 2007

TRAVESSAS (9) - As Casas da Minha Terra


Na minha infância as casas da minha terra eram negras!
Os telhados em pedras de lousa, negros!
As paredes do exterior e interior em pedras de xisto, negras!
As cozinhas devido ao fogo das lareiras, negras!
Os utensílios, panelas, frigideiras, tachos, negros!

Era uma terra escura, como sombria era a alma daquela boa gente que alí vivia.
A segunda guerra mundial tinha terminado há pouco tempo e embora Portugal não se tenha envolvido directamente nesse drama, sofria no
aspecto económico, o qual agravava ainda mais as condições aviltantes do povo rural,com uma agricultura apenas de subsistência,
em que se comia batatas com hortaliça, a sardinha e o chicharro
eram repartidos, a broa e a sopa completavam as refeições, dia após dia.

Nesses tempos degradantes e de muito sofrimento, os homens da terra na sua angústia de não terem trabalho retribuído, tinha acabado
o trabalho nas minas de volfrâmio, minério este que sustentava uma parte dos interesses na guerra, emigravam para Lisboa na ânsia
do eldorado que lhes permitisse uma melhor forma de sustentarem
a mulher e os filhos, estes que ficavam na aldeia: a mulher a trabalhar no campo e os filhos a estudar, quando pequenos,
ou mais tarde na ajuda dos trabalhos agrícolas.

Tudo isto era uma ilusão! Os homens em Lisboa, sózinhos, a viver em casas de hóspedes, três e quatro num simples quarto, trabalhando
de dia e de noite, com salários miseráveis, comendo mal, sofrendo a nostalgia da distância, nessa altura os homens visitavam as mulheres
e os filhos uma ou duas vezes por ano, sentindo que não conseguiam
amealhar quase nada, depois de pagar a pensão, o comer e o gasto com algumas rameiras que generosamente lhes abriam o seu leito,
sobravam apenas migalhas que se esvaíam em nada quando na
altura de fazer contas na visita à sua terra.
A mulher, coitada, só e abandonada, a trabalhar e a tomar conta dos filhos, sem dinheiro, ia vivendo a angústia dos dias sem esperança,
numa atmosfera deprimente, a juntar ao negrume das próprias casas.

Mais tarde os homens entenderam que aquela forma de vida não era a ideal e tomaram a iniciativa, lógica, de fazerem a junção das familias. Assim, ou em Lisboa, ou em Travessas as pessoas passaram
de novo a ser famílias.

É nesta fase que aparecem as primeiras casas brancas na minha terra!
Com a familia de novo unida e as consequentes vantagens dessa união, com o facto dos filhos já poderem, trabalhando, dar alguma
ajuda financeira e também porque a vida na sua evolução natural proporcionou alguma melhoria, os naturais de Travessas começaram
a dar um aspecto novo, diferente, às suas casas: substitui-se as
lousas por telhas, as pedras de xisto foram, ou escondidas, ou mudadas para tijolos e cimento, as cozinhas ficaram brancas com a
chegada dos fogões a gás, enfim as casas tornaram-se brancas, a minha terra ficou mais linda.

A vida evoluiu, ficou melhor! O passado negro não deixou saudades! Por vezes oiço pessoas, nostálgicas, falarem dos seus tempos, que
nessa altura tudo era melhor, agora é só desgraça, coisas más: guerras, ódios,roubos, droga, etc., etc...
Na minha modesta opinião estas pessoas não têm razão! O presente pode não ser o que todos nós gostariamos, mas guerras, ódios,
roubos, coisas más, sempre houve. Hoje há progresso, todos os dias acrescentamos coisas novas ao futuro. A vida passada era uma vida
dura, de muita luta e pouca esperança e se muitas vezes ouviamos
as pessoas cantando nos campos, isso não era um cantar de alegria,
um cantar de confiança, mas sim uma forma de expandir mágoas, o triste fado duma vida em que o comer era pouco, a maior parte das
aldeias não tinha estrada, não havia electricidade, água nas casas, ou
telefone para falar aos ente-queridos.

Hoje, felizmente, todos nós vivemos melhor, temos uma terra maravilhosa, as casas são acolhedoras, temos tudo que o progresso
nos deu, apenas ansiamos por mais saúde, amor e paz.

E por falar em progresso e em esperança no futuro, eu, que não me recordo de se construir uma casa de raiz na minha terra, apenas
arranjos e reconstruções, aqui saúdo com enorme júbilo o facto da Maria Carlos/A.Augusto, terem feito aquilo que em meio século não
foi visto em Travessas: uma casa nova! Para eles a realização de um
sonho, para nós a felicidade de estar com eles, o agradecimento por não terem esquecido a terra dos seus pais, a terra que agora também
é deles, um evento que, acreditamos, será o embrião de futuras transformações nesta Travessas que amamos, a nossa terra!

Travessas, 11 de Dezembro de 2003


Carlos Manuel F.Gonçalves

(Jornal de Arganil nº. 3918 de 8 de Janeiro de 2004)

4 comentários:

António Augusto disse...

fiquei satisfeito por ver a tua preocupação em divulgar a nossa aldeia,obrigado.se precisares de fotos diz os comentários serão teus.um abraço do sempre amigo. A. Gomes

Maria Carlos disse...

ola primo acabei de ver o teu blog, fiquei agradavelmente surpreendida.E pena que visites tão poucas vezes a nossa aldeia, de qualquer modo obrigado pelo que escreves-te, gostei muito do que disses-te da tia Eugénia, foi tudo verdade espero que continues a escrever muito mais,
beijinhos Maria Carlos

Anónimo disse...

jà agora o meu endereço antonio.gomes@nicolaurosa.com maria.carlos@nicolaurosa.com

Carlos Gonçalves disse...

MCarlos/AAugusto:

Gosto muito da terra em que nasci, sendo assim é fácil escrever memórias, falar do momento presente ou perspectivar o futuro.

Sempre que tiver disponibilidade, ou se houver assuntos de interesse, não deixarei de publicar aqui, ou no 'Jornal de Arganil', a minha visão dos diversos temas.

Um abraço.

Carlos Gonçalves