
A ARVORE (I)
A árvore!
Um álamo ou choupo, na representação duma peça da natureza, no sentir da minha existência.
Árvore, minha mãe ausente, meu pai presente, mulher da minha vida! Companheira dedicada e confidente, dos meus desvarios, das minhas angústias, dos meus sonhos, das minhas paixões…
Dorme paredes meias comigo, acorda-me, docemente, na manhã, sob a forma dum melro madrugador e o suave gemido da brisa nas suas folhas, é o som do beijo húmido e apaixonado que me enlaça na alvorada.
Durante o dia, os seus ramos parecem agarrar o céu, na imagem dum pincel gigante, que pinta de azul o horizonte da serra.
Por entre a sua folhagem de sombras, anoiteço num mar de estrelas, no vislumbre da Lua das minhas paixões.
Nas estações da minha vida, a árvore, faz dela as minhas estações, numa visão de mulher bela e fascinante: na Primavera, encanta-me, na sua passagem de modelos, quando se veste de folhas e flores; no Verão, abraça-me na sombra dos seus ramos, o chão é alcova onde dormimos juntos; no Outono, desnuda-se de forma sensual, mostra-me todo o fascínio do seu corpo, no pálido sol da tarde, que me aquece a alma, fazemos amor na conjunção das nossas sombras; no Inverno, nos trovões da vida, na sinfonia do vento e na teia da chuva, é música calmante, é bailado, é rio doce, nos gritos do meu ser… E mesmo quando a neve lhe alveja os ramos e a geada queima as raízes, vejo apenas o grisalho do meu cabelo, no entardecer da vida.
No meu paganismo, ela representa o meu Deus, o meu pai enraizado, muitas vezes falo com ela, conto-lhe das minhas inquietudes, dos meus anseios, das minhas mágoas, dos momentos felizes… E, em momentos, parece que ela me entende, me aconselha e me acalma, no murmúrio dos dias que deslizam por entre os dedos abertos.
Amanhã, vou partir, mas regressarei um dia, serei raiz, serei tronco e ramos, serei flor, serei árvore, natureza…
A ARVORE (II)
No belo do teu verde,
A pintura do meu céu!
Natureza,
Beleza…
Por debaixo do teu véu,
Um corpo de mulher
Presente,
Num coração que sente.
Quinta do Anjo, 30 de Novembro de 2009
Carlos Manuel Fernandes Gonçalves