sexta-feira, 10 de julho de 2009

TRAVESSAS (15) - O Castanheiro do Alqueve

Sim, sabia que era velho!
Não sabia, todavia, quantos anos tinha, embora ouvisse dizer que a sua espécie, por tradição, vivia 300 anos a crescer, 300 a viver e 300 a morrer e ele já estava na curva descendente há muitos anos.

Muitas gerações de pessoas tinham passado por ele, via as crianças, no início de vida, depois jovens e adultos e mais tarde velhos como ele e isto repetia-se, ciclo após ciclo, durante muitos séculos.

A sua morada era em Travessas, na encosta do Alqueve, um ermo, na fronteira que separa o souto dos castanheiros, da zona de mato e pinheiros, no caminho para as Aveleiras.

Do alto dos seus ramos gostava de admirar o Sol e o azul do céu, a Lua e as estrelas, ver o trânsito a passar na estrada, junto à Nossa Senhora da Boa -Viagem, em Sarnoa - Celavisa, avistar, durante o dia, os milhafres, os peneireiros e as águias, voando na imensidão do espaço da Serra do Porto Cimeiro, assistir à passagem dos gaios e corvos, para a Fonte e Lameiro Curral, apreciar, durante a noite, o deambular dos morcegos, assim como vislumbrar, na escuridão, os mochos, corujas e bufos, passarem a caminho da Vinha – Velha ou da Alagoa.

Nas suas pernadas e na folhagem mais recôndita, dava guarida e casa a todas as espécies de pássaros que ali quisessem resguardar-se ou fazer o seu ninho. Na Primavera – Verão era uma correria ver qual conseguia o melhor lugar, longe das vistas curiosas dos jovens adolescentes e das aves de rapina, que logo aproveitavam para lhes surripiar as crias e destruir os seus lares, assim como buscavam protecção das inclemências do tempo, das trovoadas e do sol abrasador.

O seu tronco, que três homens não conseguiam abraçar, estava agora vazio, era um tronco oco. Os muitos anos tinham-lhe levado o cerne, a sua robustez de outrora estava agora limitada a um simples anel, onde uma pequena camada do seu âmago, resguardada pela casca, deixava passar a seiva que lhe ia alimentando o resto do corpo.
Apesar de decrépito, quantas vezes este tronco vazio serviu para proteger as gentes da aldeia, do agreste frio de Inverno e da chuva que surgia inopinadamente, em ocasiões serviu mesmo de refúgio amoroso a alguns casais que buscavam no seu interior um lugar resguardado de indiscretos olhares.
Igualmente foi lugar de descanso ou mesmo dormida de animais nocturnos, como ginetes, papalvos, doninhas e gatos - bravos. Muitas vezes sentiu a presença de coelhos, que procuravam alimento nas castanhas caídas e lobrigou outras espécies, farejando a seus pés, como raposas, nas suas tarefas de caça, e outros animais de mais elevado porte, como texugos e javalis, cujo trilho de passagem, da Serra para o Pai Joanas, era mesmo ali ao lado.

Também amou, amou muito, a brisa enleava os seus ramos e as suas folhas numa vizinha castanheira, os gemidos do vento, eram os ais do seu coração apaixonado, foi o amor da sua vida… No início, uma louca paixão gerou vendavais no tempo, com o passar dos anos, o sentimento exacerbado deu lugar ao amor e a uma cúmplice e eterna amizade. Quando ela morreu, vítima dum fungo chamado ‘doença da tinta’, a existência deixou de ter sentido, passou a viver oco, como o seu tronco, na melancolia da solidão.

Teve filhos, muitos filhos, todos lhe levaram, perdidos nos temporais ou tirados pelos homens, que os utilizavam em utensílios domésticos, como cestos, cestas, pipos, varas e esteios para os corrimões das vinhas, ripas e traves para o telhado das habitações…

Durante séculos deu, a todos, o melhor de si: casa, filhos, guarida, a beleza das flores em Maio e castanhas, muitas castanhas, ano após ano, no mês de Novembro, sempre os seus ramos se curvavam carregados daquele fruto, que em épocas ancestrais, era dos principais meios de subsistência duma povoação abandonada e carenciada.

As eras foram passando e a tudo, o velho castanheiro, foi resistindo, resistiu às pragas, aos vendavais e aos ciclones - houve um, todavia, que o deixou deveras maltratado -, as pessoas, passavam no caminho e olhavam, com respeito, a sua longevidade e agradeciam tudo aquilo, que ele nunca regateou, na eterna oferta que fazia.

Assistiu às diversas transformações da vida: viu o trânsito na estrada Góis -Arganil, passar de carruagens puxadas a cavalos para os rápidos e brilhantes carros de agora; assistiu à passagem, lá longe, junto ao céu, duns pássaros enormes, que mais tarde soube chamarem-se aviões; admirou a mudança nas indumentárias das pessoas, gostava mais das roupas modernas, do que dos antigos trajes de linho, riscado, sarja, chita, estamenha, burel, surrobeco, cotim, sapatos em carneira e tamancos; não entendeu porque, antigamente, ouvia alegres cantigas ao desafio, em qualquer lugar, e mais tarde apenas o silêncio; ficava receoso quando na distância, por vezes, via clarões que, nos comentários que ouvia, diziam ser incêndios, felizmente naquela terra não havia desgraças dessas.

Quando já cansado, doente, velho e senil deixou de sentir e admirar os prazeres da existência, quando as pessoas, que passavam, lhe batiam, de forma depreciativa, com a sachola ou com o machado, lhe atiravam pedras para a toca e diziam: - ‘pobre castanheiro, está velho!’- nessa altura começou a ter uma sensação de angústia, um desassossego e uma dor de alma, que pronunciava uma desistência de viver, um aceno ao termo da vida.

Foi assim que no dia em que acordou pela manhã e olhou o Porto Cimeiro, a Serra da Barroca Larga, o S. João e a Vinha – Velha e viu um clarão vermelho, tudo em chamas, sentiu o calor anormal e a cinza cair-lhe nos ramos, logo um presságio lhe fez sentir que o ocaso estava próximo.

Depois de tanto ter vivido, tantas gerações conhecido e a tantas coisas ter assistido, foi quase num deleite de puro alívio que abriu os braços, no preciso instante em que sentiu as suas folhas e ramos principiarem a arder, e quando o lume lhe entrou, pela toca, nas entranhas do seu corpo, já era um ser entregue na volúpia do fim.


Quinta do Anjo, 10 de Julho de 2009

Carlos Manuel Fernandes Gonçalves

(Jornal de Arganil nº. 4206 de 16 de Julho de 2009)

3 comentários:

Graça Pereira disse...

Olá Carlos
Nós somos daqueles que optaram por fazer um blog diferente. Acho bem partilhar o espólio sentimental com coisas tão bonitas, como é a vida de cada um. Enriquecemo-nos mutuamente. Visito muitod blogs, lindos sem dúvida, mas alguns repetitivos e cópia uns dos outros, até com certo despique. Connosco, não há esse problema. Penso que deve continuar. Li tudo e gostei do modo como escreve. Um bj Graça

Delirius disse...

Sabes que mais (?!), acredito no voluptuoso deleite que aquele ancião deve ter sentido no momento da sua imolação! Acredito mesmo!
Às vezes também me apetecia desaparecer para poder renascer!
Espantosa a forma como poetaste a vida daquele Castanheiro, como se de pessoa se tratasse.
Lindo, amei!
Beijo.

intervalo disse...

Bom dia Carlos,acordei ouvindo canto dos passarinhos na árvore em frente de casa,domingo amanheceu com relâmpagos,trovões,chuva forte e frio que maravilha mãe natureza,senti saudade do meu trabalho dava-me alegria acordar muito cedo sair na rua na volta pra casa ter companhia dos pássaros fazendo festa antes do sol nascer galhos das árvores dançando com suave melodia, no outono o chão é um tapete amarelo pelas flores que caem quantas vezes peguei-me rindo de satisfação afff se alguém visse isso por certo pensaria que sou louca srsr.Cheguei aqui reli O Melro,O Castanheiro quantas saudade trouxe ao meu coração.Obrigada querido amigo pela sua bela escrita.Desejo-lhe paixão renovada em cada amanhecer.beijoss com carinho meu.Lia...