sábado, 25 de julho de 2009

IMAGENS DA VIDA - O MELRO

O melro cantava, todos os dias, sensivelmente à mesma hora, em cima da mesma oliveira…
Do alto do seu ramo, elegante, na sua vestimenta preta e de bico amarelo, os seus cantos eram desafios para todos os outros pássaros que, tal como ele, alegravam as manhãs com as suas cantorias. Não sei se não seria também vaidade, ser o maior tenor da zona, o marcar terreno, em relação à sua apaixonada que, por vezes, lhe fazia companhia no ramo ao lado.

No quotidiano sossegava o meu espírito com árias de puro deleite, era o companheiro mais presente nas horas da minha solidão.

Hoje, à hora habitual, estranhei o silêncio, não o ouvi cantar. Fui junto da árvore, seu poiso, não vi o meu inspirador e quando os meus olhos são atraídos para a cerca de arame, que veda o condomínio fechado duma urbanização próxima, vejo o corpo do melro, no chão, morto. Provavelmente, num dos seus voos, foi imprevidente, não reparou na cerca e o choque contra ela, determinou o fim da sua existência. O progresso foi a causa da destruição dum ser, que fazia da vida o encanto de outros seres.

Quando vi aquele corpo preto caído na terra, a emoção foi mais forte, pressenti a orvalhada da manhã na névoa dos meus olhos, e na angústia do momento peguei-lhe, com carinho, fiz uma cova e enterrei-o. Este meu amigo não merecia terminar na boca de um qualquer predador, tinha direito a um descanso digno.
No instante em que terminei a tarefa, senti que o preto das suas penas era agora o negrume da minha alma.


Quinta do Anjo, 4 de Junho de 2009

Carlos Manuel Fernandes Gonçalves

6 comentários:

Graça Pereira disse...

História comovente de quem é sensível e ama as coisas simples da vida. Eu faria o mesmo dava-lhe um final condigno. Enquanto houver pessoas como tu ,Carlos, este mundo será muito mais bonito. Obrigada. Boa semana e um bj Graça

joanasoares disse...

Oh...Que linda e triste história.
Bem simples, mas tão profunda.
Sim, a natureza é também a minha incondicional amiga... mãe, casa.

Abraço,
Joana

Anónimo disse...

Ola Carlos.Tu nasces-te nas Travessas mas eu Mena adoptei a tua terra ha 38anos quando a vi pela primeira vez,Amo as Travessas com todo o meu coração,mesmo com a rasteira que a vida me pregou.Ha 35 anos ainda se demorava 5h para la chegar ia 4e5 vezes no ano tudo era preteixto para ir a bela aldeia das Travessas infelizmente hoje estou mais limitada.Em 2007 estive la de 14 de Agosto a3 Setembro,2008 foi triste porque tive que ir por motivo da doença e falecimento da minha Francelina que eu gostava muito.felizmente que os meus filhos gostam muito de ir para la,a Sonia foi hoje as 11h ja la estava.Continua a escrever sobre essa bela aldeia.Um grande abraço para ti Lizete filhos,ja sei que são avós.Beijinhos para todos.Mena 1 Abraço em nome do meu Carlos

Carlos Gonçalves disse...

Mena, beijinhos para ti e Sónia e um abraço para o Carlos e teu filho.
Gostei muito de saber noticias vossas, pode ser que um dia destes nos possamos encontrar em Travessas.
Conforme a disponibilidade irei continuar a escrever coisas sobre a minha aldeia, terra que amo, e também sobre outros aspectos da vida.
Igualmente, um beijo da Lisete.

Carlos

Delirius disse...

Este ano passei uns meses numa vila Alentejana, onde tive o previlégio de um jardim. Todas as madrugadas acordava com o chilrear da passarada. Pelas àrvores faziam ninhos e punham os ovinhos, mesmo à nossa mão de semear. Gastei muito do meu tempo a ver os pais a ir e voltar, primeiro na construção dos ninhos depois no buscar dos alimentos. Por fim era chegada a hora das crias se aventurarem nos voos. Estava um calor abrazador, nem todos sobreviveram; um deles que apanhei do chão para lhe dar água, morreu-me na mão..., eu sei como é, é muito custoso de ver, e também de os enterrar...!
Beijo.

intervalo disse...

Sinto um prazer enorme atravessar o mar,encontro sensibilidade nessas paragens,fez-me lembrar tempos retornava pra casa no amanhecer ouvindo canto dos passarinhos,sol despontando no horizonte que maravilha que muitos de nós não sabemos apreciar dar devido valor a esta encantadora morada.Boa noite Carlos,que o amanhã te encontre cheio de entusiasmo.beijoss com carinho meu.Lia...