

Toda a minha vida foi vivida, sonhando… sonhos!
Fui garimpeiro em serras, montes e vales, na procura de quimeras. Entrei em cavernas, cavei e furei, apenas colhi ecos de aflições e angústias, que alguém, antes de mim, ali tinha semeado.
Voei sobre campos e planícies, sobrevoei nuvens, sonhei chegar ao Céu. A rota era de vazios e escuridão, naufraguei nos gemidos do vento, nas lágrimas das nuvens, nos medos de mim…
Naveguei em rios, mares e oceanos, sonhava margens suaves, ondas calmas, ninfas, sereias e ilhas luxuriantes. Encontrei colossos de escolhos, mares encrespados, procelas, plantei rosas na areia, bebi água salgada, banhei-me em sonhos de espuma...
Explorei selvas, nunca antes desbravadas, na descoberta de fantasias perdidas. Penetrei no seu âmago, abri veredas, desfiz barreiras, enfrentei o selvagem do bravio, encontrei-me desaparecido entre os perdidos, um condenado na procura das trevas…
Aventurei-me no deserto, no desejo de oásis encantados, deusas e odaliscas. Enfrentei fantasmas de sombras, derreti-me na torreira do espírito, gelei no frio da alma, delirei abraçado ao corpo da solidão…
Fui gladiador na busca da felicidade, numa ânsia de conquista de paz, amizades, paixões e amor. Lutei numa arena de feras, em vez de paz deram-me ódio, os amigos tornaram-se inimigos, vivi ilusões por paixões, o amor foi desamor…
Num derradeiro sonho, procuro o oculto, o centro da Terra, na utopia do paraíso eterno. Cavo um poço, uma janela de esperança, e quando entro em devaneio, na miragem da ilusão, encontro um lago de água fria e o banho com que lavo a alma, faz-me desvanecer a embriaguez dos sentidos. Porfio, avanço, ainda resisto a uma torrente de ouro preto que me mumifica a esperança, mas quando vislumbro o fogo do vulcão, que me impede a passagem, já sei que cheguei ao fim do caminho, os sonhos da vida, que sempre sonhei, vão ter o seu ocaso, queimados, fumo e cinzas no regresso ao nada.
(Hoje, no fim dos sonhos, sou lava solidificada, sou pedras pretas, calçada que tu pisas quando passas na rua.) Quinta do Anjo, 5 de Fevereiro de 2010
Carlos Manuel Fernandes Gonçalves