sexta-feira, 1 de maio de 2009

DIARIO (6) - ABRIL DE 2009

Portimão, 1 de Abril de 2009

Ciprestes; ruas, com casinhas alinhadas; alamedas, ladeadas por montes de terra alinhados; flores, naturais e artificiais; inscrições – ‘eterna saudade…’ -…
Terra salgada com pranto salgado!
Portimão, última morada! Lá juntei as minhas lágrimas a um revolto monte de terra.

Montijo, 2 de Abril de 2009

Regresso ao Montijo, cidade, com o pensamento na Aldeia Galega, de antanho.
Vejo a cidade das luzes, idealizo a aldeia das estrelas.
Vejo as terras inóspitas, fantasio o paraíso duma solitária rosa.
Vivo a morte das ilusões presentes, sonho a vida dos sonhos passados.
Montijo, cidade, desencanto! Aldeia Galega, aldeia, paixão!

Quinta do Anjo, 3 de Abril de 2009

Que belos os campos, que linda a Primavera!
Olho a planície, canteiro florido; espanto um bando de pássaros, chilreantes, namorando e fecundando, na construção do seu lar; oiço o cantar do cuco e o zumbir das abelhas; admiro a azáfama das formigas, na temporã tarefa de encher o celeiro; ressuscitam as moscas da sua hibernação; vivo o renascimento da vida em todo o seu esplendor…
Primavera do meu início de vida, Primavera eterna do meu ser!

Quinta do Anjo, 4 de Abril de 2009

Quantas vezes, na minha existência, dei por mim a ansiar que o tempo passe depressa, que chegue célere a hora da saída do trabalho, os fins de semana, os fins de meses, as férias…
Na meninice queria, rapidamente, ser adolescente, depois jovem, em seguida homem…
Nunca percebi que esta pressa de antecipar a vida, me faria chegar mais depressa ao entardecer, ao fim… Esqueci que esse tempo perdido me vai fazer muita falta na hora da partida!

Quinta do Anjo, 5 de Abril de 2009

Domingo de Ramos celebra a entrada triunfal de Jesus Cristo na cidade de Jerusalém. Montado num jumento, símbolo da humildade, é aclamado por uma multidão como Messias, o Rei de Israel e crucificado na Sexta, a pedido desse mesmo povo que antes O havia idolatrado.
Na minha aldeia, este dia é comemorado levando os fiéis ramos de flores, de oliveira e loureiro, que o sacerdote abençoa antes da Missa.
Na minha adolescência havia um despique entre os jovens, para ver quem conseguia levar o maior loureiro, assim nesse dia era um desbaste, nos campos, onde existissem essas árvores.
Esta quadra reflecte, na realidade, o volúvel da natureza humana, na emoção do momento: de bestial a besta; de aplausos a pateadas; de paixões a traições…

Quinta do Anjo, 6 de Abril de 2009

Acordo pela manhã e dou graças à minha mãe, por ter nascido mais uma vez.
A minha visão da existência faz com que eu viva cada dia como se fosse uma vida. Mesmo que, na aparência, os dias sejam iguais, o meu espírito anda permanentemente evadido, vogando ao sabor das ondas do mar ou flutuando no etéreo…
Esta maneira original de vida engana a rotina, mistifica a velhice e cria em mim a utopia do ser criança, da eterna juventude…
O pensamento – heresia -, é convencer-me que sou mais velho que Jesus Cristo: pois se Ele nasce todos os anos, em 25 de Dezembro, o que sucede há 2009 anos, eu ao nascer todos os dias, tenho, neste momento quase 22000 anos!
A verdade é que esta ilusão, dum ser menino, dum ser que nasce todos os dias, é a melhor forma de iludir a morte.

Quinta do Anjo, 7 de Abril de 2009

Existe um ser rotineiro, pacato, solidário, aceitando o que a sociedade impõe, convivendo com as pessoas, circulando bem na azáfama da cidade, transmitindo uma sensação de paz, de tranquilidade, de bonomia no rosto…
No oposto, há um outro ser, inquieto, desassossegado, lutando para modificar os costumes e a vida, pouco sociável, procurando o isolamento da natureza, dando uma percepção de angústia, dum ser desesperançado na procura da esperança…

Existe um ser, como muitos outros, que gosta de futebol e outros desportos; que vê televisão, com os mais variados programas genéricos; que vai aos Centros Comerciais, vê as montras e admira os figurantes; que lê livros de Júlio Dinis, António Aleixo, Agatha Christie, Júlio Verne e Alistair Maclean; que gosta de filmes do estilo, ‘O Pátio das Cantigas’, ‘A Canção de Lisboa’, ‘Rio Bravo’, ‘A Grande Farra’ e outros, como Harry Potter e Mário Moreno ‘Cantinflas’; que gosta de música popular, tipo Quim Barreiros, Ágata ou José Malhoa, Bandas de bailaricos e Filarmónicas…

No oposto, há um outro ser, que não aceita o futebol e o desporto, neste modelo mercantilista, de mercenários e de ídolos de pés de barro; que selecciona na televisão os programas, National Geographic, Odisseia e História; que nos Centros Comerciais só consegue permanecer em lojas como a Fnac, Bertrand ou Worten; que em leitura privilegia autores como Miguel Torga, Luís de Camões, Ferreira de Castro, Jorge Amado, Federico Lorca, John Steinbeck, Emílio Zola, Alexandre Soljenitsin, Fédor Dostoievski, Erich Maria Remarque e Hans Hellmut Kirst; que aprecia filmes como ‘2001 Odisseia no Espaço’, ‘The Graduate (A Primeira Noite’), ‘O Último Tango em Paris’, ‘Os 10 Mandamentos’, ‘Apocalypse Now’, ‘O Código Da Vinci’; que gosta da música de José Afonso, Madredeus, Patxi Andion, Chico Buarque, Compay Segundo, Cesária Évora, Jacques Brell, R.Strauss, G.Verdi, F.Mendelssohn e S.Prokofiev…

Existem, realmente, dois seres distintos: um pacato, outro inquieto? Não, o ser é único, sou eu!
Triste condão o meu e quem lida com o meu desassossego! Em momentos, um ser racional, a viver o normal trilho da existência, noutros, um ser inquieto, a viver a irracionalidade de arremeter contra as muralhas da vida, sem as tentar contornar, numa luta inglória sem qualquer esperança de vitória, apenas uma batalha de desespero, na ânsia de sobreviver às angústias do espírito e da alma.
Como podem os outros compreender-me, se, por vezes não me conheço a mim próprio!

Setúbal, 8 de Abril de 2009

Exame médico, na cidade do Sado! Em determinados momentos da minha vida, lutei para curar as mazelas da alma; agora, numa fase mais adiantada da minha existência, tento curar as mazelas do corpo.

Palmela, 9 de Abril de 2009

Outro exame clínico! Na juventude, os ouvidos ouviam tudo, os olhos viam o horizonte, o estômago devorava qualquer comida ou bebida, as pernas voavam e o coração palpitava docemente; agora, os ouvidos só ouvem o que querem, os olhos só enxergam o próximo, o estômago está mais sensível, saboreia o que come e o que bebe, as pernas arrastam-se e o coração galopa, loucamente.
Apesar de tudo, um sinal de confiança no meu ser: o espírito e o sexo ainda não foram adulterados. Continuo vivo!

Quinta do Anjo, 10 de Abril de 2009

Sexta-feira Santa! Dia em que Jesus foi julgado, crucificado e morto, na remissão dos pecados da humanidade.
É necessário haver esta época para nos lembrarmos dos nossos pecados, para quem acredita, dos nossos erros, para os descrentes.
Eu, que durante a vida cometi muitos erros, através de irreflectidas acções e maus pensamentos, também, apesar de descrente, neste dia me penitencio e se existe alguma Divindade, algum Deus, me perdoe, porque quando errei, foi por ignorância ou inconsciência, nunca no sentido imoral de prejudicar o próximo.

Quinta do Anjo, 11 de Abril de 2009

Li, com espanto, uma notícia que relata a proibição das funcionárias da Loja do Cidadão, em Faro, de usarem blusas decotadas, mini – saias, perfumes sugestivos e roupa interior escura.
Eu, que sempre admirei a mulher em todo o seu esplendor, fico estupefacto e não quero acreditar neste acto censório à beleza feminina.
Ainda compreendia que proibissem o uso das mulheres com bigode, lisas, sem seios, sem formas, pernas com pelos, roupa interior cor de carne e perfumes a cheirar a sovaco; mas proibir a fantasia duma roupa interior de cor preta ou vermelha, proibir o vislumbrar dum seio, dumas coxas de deusa, de entrever o triângulo pudico e impedir o aroma dum perfume de inebriar os sentidos, francamente, só um desvario dum ser frustrado, dum ser mal com a vida, pode levar a tal situação.
Por mim, entendo, não é com actos proibitivos ou com recatadas roupas, que se tapa o belo da vida.

Quinta do Anjo, 12 de Abril de 2009

Dia de Páscoa! Dia da ressurreição de Cristo, dia em que mesmo os ímpios, sonham uma perspectiva de paz, uma quimera de esperança.
Dia de afectos, de juntar a família, de convívio, fugazes instantes de deleite…
Nem tudo é mau na existência, quando estou junto daqueles que amo, sinto que a vida podia ter um sentido diferente, se houvesse mais harmonia e mais amor na humanidade.
Hoje, dia em que a Igreja comemora a vitória da vida sobre a morte, o triunfo da luz sobre as trevas, na ascensão de Jesus Cristo ao Céu, eu, cristão crente pelo lado da minha mãe e descrente pelo lado da vida, quedo-me na angústia da indecisão: louvo Deus, Criador do Céu e da Terra e Jesus Cristo, Seu Filho, como Divindades; ou condeno esses Deuses e a justiça sagrada, pela injustiça da fome no mundo, pela violentação e morte de crianças, pelas guerras fratricidas, pelo terramoto de L’Áquila…

Quinta do Anjo, 13 de Abril de 2009

Dei início à escrita da auto-biografia da minha vida. Vou dividi-la em 4 partes, ou seja, uma associação às estações do ano: Primavera, - a manhã da vida -, período do nascimento até aos 25 anos; Verão, - o apogeu da vida -, dos 25 aos 50 anos; Outono, - o entardecer da vida -, dos 50 aos 70 anos; Inverno, - o epílogo da vida -, fim.
Espero escrever os dois primeiros capítulos e ir compondo o terceiro, consoante a saúde o permitir, o quarto, é, neste momento, pura fantasia e a não ser que o termine junto de São Pedro ou outra Divindade, será sempre incompleto.

Sacavém, 14 de Abril de 2009

Mais uns tantos exames. Enquanto os médicos não descobrem a proveniência do mau estar do corpo, vou ficando mais radioactivo, destilo bário ou urânio - a composição dos RX’s -, e a magicar um plano de vender o sangue a vampiras, sempre lucro algo neste constante espicaçar e sorver a seiva das minhas veias.
Estranho corpo, o meu: por um lado, menos vigor; pelo outro, bomba atómica prestes a explodir!

Quinta do Anjo, 15 de Abril de 2009

Olho-me ao espelho e exclamo em pensamento: estás jovem!
Comparo o meu rosto actual com uma foto dalguns anos atrás e constato um facto: estou velho!
A vida é isto, vemo-nos ao espelho, todos os dias, não damos pela passagem dos anos, só quando olhamos o passado, revelamos o negativo da nossa decadência.

Quinta do Anjo, 16 de Abril de 2009

Críticos!
Cada dia temos mais comentadores: de política, de desporto, de arte, de religião, agora até da sociedade, do jet-set.
Nas televisões, nas rádios, nos jornais, é uma epidemia de génios, a mostrarem a sua sabedoria, com uma linguagem erudita, acima do alcance das normais inteligências.
Os comentadores políticos, dissertam sobre o último discurso do presidente e o que está escrito nas entrelinhas; traduzem as palavras habilidosas do primeiro-ministro; explicam as ofensivas verbais dos chefes da oposição, comentam as sondagens e a popularidade dos diversos políticos e antevêem o ciclo eleitoral que se avizinha e as suas consequências.
Os críticos do desporto exibem um computador portátil com o esquema de jogo das equipas e dizem-nos como elas deviam ter jogado; falam sobre os erros e as habilidades dos árbitros; e falam da incompetência dos treinadores, jogadores e presidentes.
Os entendidos em arte criticam os artistas, quer eles sejam da música, cinema, teatro ou dança, que eles tiveram uma actuação inolvidável ou, na realidade, estão mais fadados para as sociedades recreativas; comentam a literatura e dizem que os autores, alguns são excepcionais, outros deviam dedicar-se à jardinagem; permitem-se falar sobre os Mosteiros, dos Jerónimos, Batalha e Mafra, não esquecendo a Torre de Belém, e dizem que a arte antiga era uma maravilha, ou então, despeito, que o pórtico manuelino e o claustro estão tortos.
Em religião aparecem uns iluminados que falam de Deus, Jesus, Alá, Maomé, Jeová, Buda e outros Deuses, com ar distinto e compenetrado, com barbas ou sem elas, ensinam-nos como nos comportar diante de semelhantes divindades, qual nos protege mais e a quem devemos exaltar a nossa fé.
Na análise da sociedade, do jet-set, existem umas revistas e umas tertúlias de doutas figuras, pertencentes ou conhecedoras desse mundo, que nos elucidam das razões - importantes claro -, dos casamentos, dos divórcios, das traições, das férias com o namorado da outra, dos regressos depois do interregno, das noites dormidas, umas com um e na seguinte com outro, de alguns que se consta são sexualmente duvidosos, enfim escolas de virtudes duma sociedade moribunda e podre, mas que tem audiência e vende colóquios e revistas.
Eu, por vezes, para ver como anda o mundo, se algo mudou, assisto aos primeiros minutos destes espectáculos deprimentes, com um misto de tristeza e desolação.
É que, infelizmente, quase todos estes críticos ou comentadores são personagens com interesses nos assuntos que versam, não são pessoas credíveis e isentas: vejo analistas de política, que apenas procuram defender os partidos a que pertencem ou das suas simpatias e criticam todos os outros; os críticos de desporto tomam a defesa dos clubes da sua paixão e atacam os adversários; os comentadores de arte são, normalmente, pessoas que se julgam altamente intelectuais e para eles apenas a perfeição conta; os sábios em religião, padres, pastores, leigos e os casais que me batem à porta para eu aderir a uma qualquer igreja, congregação ou seita, apenas procuram vender um produto, utilizando o nome dos Deuses para o efeito; os entendidos em temas, cor-de-rosa, chafurdam nas misérias, de que muitos deles também fazem parte.
Quase toda esta gente diz coisas que já ouvimos vezes sem conta, estilo cassete, quer dizer, começam a falar e antes do meio da frase já sabemos como eles vão acabar.
Por vezes fico na incerteza: será que na vida já ouvi tudo, ou são estes sapientes que não dizem nada!

Quinta do Anjo, 17 de Abril de 2009

Retrocesso no clima, recuo no encanto, inquietude, desassossego…
Olho em volta, noite no dia, pessoas circunspectas, agasalhos, chapéus – de – chuva…
Chuva, vento e frio na natureza, escuridão na alma, angústia no espírito…
Para onde foste, Primavera? Porque me abandonas agora, quando mais preciso que me abraces, quando mais necessito da tua sedução!
Sim, vais regressar amanhã, mas nesta fase da minha vida, preciso de ti perene, quero viver todos os dias, e este negrume apenas me sugere o ventre da minha mãe e o buraco do fim.
Não obstante, alguns sinais de fé na existência: o melro que me acordou na alvorada e a rosa do meu jardim, que, formosa, me perfumou a manhã.

Quinta do Anjo, 18 de Abril de 2009

Sábado de Pascoela, verdadeiro dia de Páscoa, na minha terra, Travessas.
Dia em que crentes e não crentes aguardam, de portas abertas, a chegada do Pároco e de outros fiéis, que transportam o Senhor e O levam a beijar às pessoas e o sacerdote a benzer as habitações e a terra.
É uma tradição antiga a visita Pascal às povoações da freguesia. Nesta época deslocam-se à aldeia, muitos descendentes, ausentes em diversas cidades deste nosso Portugal, apenas no intuito de abrir a casa à visita anual de Jesus Cristo.
É um sinal de fé, uma memória muito antiga, respeitada por todo um povo, na crença do Sobrenatural, do Sagrado…
Na minha fé descrente, continuo a comover-me nestas manifestações dos fiéis e a compreender-lhes o pensamento: quando finda toda a esperança, que resta senão estar na graça do Divino, nem que seja para merecer as pobrezas da vida.

Quinta do Anjo, 19 de Abril de 2009

Na vida tenho duas paixões: o meu eterno amor e a musa da minha inspiração.
Em ocasiões, procuro o amor e encontro a musa, noutros procuro a musa e encontro a paixão.
Desacerto dos sentimentos no desvario da vida!

Quinta do Anjo, 20 de Abril de 2009

Uma cena cheia de ternura: um casal de patos, provenientes dum lago existente num condomínio fechado próximo, passeando tranquilamente nas ruas da Quinta do Anjo, para gáudio das crianças e também dos adultos, sem se assustarem, nem fugirem…
Ninguém gosta de viver enclausurado e estas simpáticas aves resolveram testar a liberdade dos lugares públicos, de passear o seu amor nos espaços de todos.
A Primavera é pródiga nestas situações! Todos nos sentimos anarquistas, uma ânsia de liberdade extravasa o nosso ser, as paixões são obsessões…
Esta época é bem a diferença daqueles momentos em que, em vez de nos evadirmos, entramos, de forma voluntária, nas prisões da vida.

Lisboa, 21 de Abril de 2009

Recordações e memórias na minha visita ao Bairro Alto, em Lisboa, local onde vivi parte da minha juventude, mais propriamente desde os 12 aos 25 anos.
Parti dos Restauradores, lembrei ali perto os bares-dancings, Ritz e Máxime, locais onde passei algumas noites agradáveis, ao som da música e da arte das bailarinas na dança e no strip.
A subida da íngreme Calçada da Glória, não utilizando o típico elevador, fez-me ver como os anos passaram: o que, diariamente, fazia sem qualquer esforço, hoje, quando cheguei ao cimo, estava extenuado.
O Bairro Alto está diferente do meu tempo: as ruas estão mais esburacadas, os prédios mais velhos, muitos antigos estabelecimentos estão entaipados e todas as paredes das casas tem graffitis, com desenhos estilo Picasso e expressões bem tradicionais, quase todas em inglês - ‘peace’ (paz), - ‘love’ (amor) -‘make love, don’t make war’ (não faças guerra, faz amor) – ‘yankees go home’ (americanos vão para casa) ‘fuck you’ (...) - também os amorosos – ‘Ana, ama Carlos’ (não sou eu!) – ‘Mara espera por ti… me liga, tm.?????????’ - ‘O João é p…….. ‘ (gay).
Passei pelas velhinhas Ruas, da Atalaia, Rosa, Barroca e Diário de Noticias e pelas Travessas, da Boa-Hora, Queimada e dos Inglesinhos, vi os prédios onde morei, olhei os vizinhos - não conheci ninguém -, as antigas tabernas agora são pubs, as mercearias são minimercados, as casas de fado são restaurantes de duvidosa qualidade, contudo, ainda está vivo, o ancião que dá pelo nome de Lisboa Clube Rio de Janeiro.
Nem tudo é diferente no velho Bairro Alto: continua a roupa estendida nas janelas; as pessoas, na generalidade, são de avançada idade; as Pensões permanecem, aquelas, do ‘serviço esmerado, banhos quentes e frios’; os cheiros, continuam nauseabundos; um casal, com ar ‘pedrado’, a fumar mais um charro; um jovem, de garrafa de tinto na mão, imita, num fado menor, os fadistas do antigamente; as prostitutas e os homossexuais permanecem, pacientemente, à espera de alguém que lhes alugue o corpo para alguns minutos de prazer...
Apesar da desilusão da mudança, o tempo não conseguiu destruir algumas belezas, quase todas ligadas à natureza ou à história: o Jardim de São Pedro de Alcântara, com uma vista espectacular sobre a cidade; a Igreja de São Roque, com o interior enriquecido por talha dourada, pintura e azulejos; o Convento dos Inglesinhos, agora transformado em condomínio de luxo; o Elevador da Bica; o miradouro de Santa Catarina, onde os olhos se deslumbram nas águas do Tejo e na zona ribeirinha; o banho cultural, na visão das estátuas, no Chiado, dos dois maiores vultos da poesia portuguesa, Luís de Camões e Fernando Pessoa e também dos Teatros da Trindade, São Luís e São Carlos.
No regresso ao ponto de partida, ainda tive oportunidade de passar pela minha antiga Escola Comercial Veiga Beirão, no Largo do Carmo - parece desactivada -, e pela Cervejaria Trindade, onde, tantas vezes, comi, bebi e olhei nos olhos, algumas precoces paixões.
No final, que recordações? Saudades do antigo Bairro Alto? Não, saudades de mim!

Setúbal, Praia da Figueirinha, 22 de Abril de 2009

Na praia olhando o mar. Dois desassossegos em confronto: no mar, a inquietude das ondas; em mim, a inquietude da alma.
Na distância, quase me afogo nas águas tempestuosas da saudade, quando te encontro, no desvario do abismo do teu ser…

Quinta do Anjo, 23 de Abril de 2009

Tudo na vida tem princípio, meio e fim. Na minha vida, já mal recordo o princípio, o meio foi há muitos anos e o fim, eu sei, está próximo!
O tempo e a vida não andam para trás e para os acompanhar tenho sempre de seguir em frente, mesmo sabendo que vou a caminho do abismo.

Quinta do Anjo, 24 de Abril de 2009

Inicio, hoje, uma trilogia relacionada com o 25 de Abril, considerando o dia 24, como o ontem, o passado; o dia 25, como o hoje, o presente; e o dia 26, como o amanhã, o futuro.

Analisando, em primeiro lugar, o 24 de Abril sob um prisma diferente, o das personalidades do Estado Novo, causa-me uma enorme perplexidade como as duas figuras principais deste regime – Oliveira Salazar e Marcelo Caetano -, que, nasceram, ou tiveram ligações profundas à Beira Serra, mais propriamente, Salazar nasceu em Santa Comba Dão e Marcelo Caetano, apesar de ter nascido em Lisboa, os seus pais eram naturais desta região, o pai de Pessegueiro, Pampilhosa da Serra e a mãe de Colmeal, Góis, sim, como é possível, estes homens terem sido uns tiranos, ditadores, inimigos da liberdade…
Estou convicto que estes déspotas nunca subiram a uma serra destas aldeias, nunca pisaram o mato perfumado ou uma fraga destes montes, não admiraram o sublime voar da águia, não se sentiram extasiados no sentimento de paz e liberdade que se vive no encanto da natureza, não conviveram com o povo simples destas terras…
Só posso aceitar uma explicação para o desvirtuar das origens desta gente: eles nasceram, ou estiveram aqui de passagem, não criaram raízes neste espaço de liberdade!

Hoje, dia 24, relembro o ontem, o passado, a escuridão, as trevas…
Recordo, a ditadura, com a consequente ausência de liberdade, a fome e a miséria! Lembro um povo amordaçado - um povo que sempre foi livre, que andou pelos quatro cantos do mundo -, agora obrigado a exilar-se e a emigrar, muitas vezes a salto, para sobreviver, a fugir dos horrores da guerra, a viver censurado e mudo para escapar às torturas dos calabouços da Pide, das cadeias de Peniche ou Caxias e ao campo de concentração do Tarrafal…
Privar uma pessoa da liberdade e mesmo matar, apenas por delitos de opinião ou de expressão, por ansiar e procurar melhores condições de vida, por recusar o ultrajante, é a mais ignóbil das tiranias, é o sentir que só, pela violência, os ditadores procuram forçar a unanimidade.
Vivi uma parte da minha vida, 25 anos, neste regime opressivo, numa inconsciência colectiva de que só despertei quando cheguei à cidade. A escola e, mais tarde, o serviço militar, abriram-me os olhos para a cruel realidade, até ai, na aldeia, o povo aceitava, sem um grito de revolta, as agruras da existência, nas orações o clero ensinava a dar graças a Deus, para merecer as penúrias da existência.
Este regime cruel tinha de ter o seu fim, o que, felizmente, aconteceu há já 35 anos, na data que amanhã se comemora, 25 de Abril. Para mim, amante das belezas da vida, da natureza e da liberdade, presto a minha homenagem aos homens e a um povo que lutou para merecer o direito de ser livre.
Apesar das vicissitudes da vida, valeu a pena nascer para viver o renascer da liberdade em Portugal, para viver o 25 de Abril de 1974.

Quinta do Anjo, 25 de Abril de 2009

Dia 25 de Abril, vivo o hoje, de há 35 anos, o durante e o presente, duma data que foi de luz, que foi de esperança…

- ‘Em cada esquina, um amigo’
- ‘Em cada rosto, igualdade’
- …

Não aceito viver sem democracia; não concebo que não tenhamos, todos, as mesmas oportunidades na vida; não suporto mordaças e perseguições por delitos de opinião; não admito prisões e campos de concentração para presos políticos; não compreendo a bestialidade em seres humanos; não tolero, independentemente da cor, regimes totalitários e ditadores; não aceito a existência sem liberdade…
São razões suficientes para gostar do 25 de Abril. Vivo sempre este dia com o coração alvoraçado e um frémito de emoção invade-me a alma.
Podia o após Abril de 1974 ter sido diferente? É evidente que sim! Cometeram-se demasiados erros, que esta geração e gerações futuras vão continuar a pagar, houve muitos atropelos à própria liberdade, de qualquer forma o balanço é positivo!
Muita coisa foi feita, o povo vive, inquestionavelmente, melhor, investiu-se nos acessos rodoviários, nos cuidados de saúde, na segurança social e na educação, hoje, deslocamo-nos mais facilmente, vivemos mais e melhor, temos melhores acessos ao conhecimento, sabemos mais…
Podia-se ter feito mais e melhor? Sem dúvida! No entanto, é com enorme satisfação que verifico, o facto dos meus filhos e dos meus netos não saberem o que é o fascismo, não conhecerem a ausência da liberdade e terem condições de vida inimagináveis na época em que me criei.
Por muito que custe aos saudosistas do passado e aos detractores do presente, é com orgulho que, hoje, passeio um cravo vermelho - mesmo murcho -, escrevo este texto e grito para mim próprio - na esperança de ser ouvido por todo o mundo -, um viva à liberdade!
- …
- ‘Terra da fraternidade’.

Quinta do Anjo, 26 de Abril de 2009

Hoje, 26 de Abril, vivo o dia de amanhã, vivo o futuro…
Um futuro de esperança! Amanhã, vou estar perto do ocaso, os meus filhos, mais velhos e os meus netos, homens. A vida renova-se todos os dias, os jovens de hoje, mais ecológicos, vão agredir menos a natureza, vamos ter carros a hidrogénio e o homem vai chegar a Marte.
Costumo dizer que sou um homem de esperança, desesperançado; amanhã quero ter outro discurso, quero ser um homem desesperançado, com esperança!
As gerações futuras dão-me exactamente essa confiança! Quando vejo a inocência das crianças, a pureza dos meus netos, vejo o embrião duma futura sociedade de mais justiça, igualdade e fraternidade.
É óbvio, vai continuar a haver desigualdades, gente com fome e guerras na terra, não vamos conseguir erradicar essa praga dum momento para o outro, mas estou convicto de que uma nova geração de homens está a nascer, o mundo está a mudar, o fanatismo tem de ser erradicado, temos de ser nós, adultos, a transmitir aos nossos descendentes o sonho de vida que sempre acalentámos e que, por inércia, egoísmo, maldade e louca ambição, não soubemos alcançar.
Sim! Pelos meus netos, pelas crianças de todo o mundo, pela vida, tenho esperança no amanhã, tenho esperança no futuro.

Quinta do Anjo, 27 de Abril de 2009

Há momentos, a admirar o voo das andorinhas, lembrei-me da história de Ícaro, das suas asas, feitas com penas de aves coladas com cera, da sua evasão e da elevação sobre o mar.
A história é conhecida, Ícaro devia voar, nem tão próximo do Sol, para que o calor não derretesse a cera, nem tão próximo do mar, para que o mar não pudesse molhar as penas. O jovem, inebriado pela sensação de liberdade e poder, desobedeceu a estas regras e voou na direcção do Sol, o que ocasionou o derreter da cera e a consequente queda e morte no mar Egeu.
Este conto da mitologia grega revela bem a mentalidade do ser humano na sua ambição: quando lhe oferecem a luz, imediatamente quer conquistar o Sol!
Eu, ao contrário de Ícaro, não tenho asas, mas também me inebrio na procura dos abismos, não sei se para me suicidar, se para me encontrar.


Alcochete, 28 de Abril de 2009

Muitas vezes, quando venho enlevar-me na sedução das águas do Tejo, dou por mim a pensar, qual a maior beleza, se o azul das águas, se o castanho dos teus olhos!
Nesta indecisão dos sentidos, olho de novo as águas e verifico que tanto as águas, como os teus olhos, têm aqui, exactamente, a mesma cor castanha! Não, não é o reflexo da ilusão, nem sequer a poluição das águas do Tejo, fui eu que em sonhos, transformado em génio pintor, pincelei as águas na cor dos teus olhos, para não ter dúvidas, quando medito, no encanto das minhas paixões.

Quinta do Anjo, 29 de Abril de 2009

Converso com uma mulher que me fala da sua liberdade, da sua maneira de encarar a vida, fala da monotonia como realização, da utopia como paixão, de fazer sexo como fazendo amor…
Eu que sempre pensei de forma diferente, penso como hipócritas são as palavras! As convicções e interjeições, que me procura transmitir, são apenas a ilusão dos seus sonhos.
Observo os gestos, oiço os argumentos, o eco soa-me a falso, encaro a profundidade do seu olhar, vejo os seus olhos nos meus e por mais que se queira iludir, pretenda enganar-me ou ao mundo, duma coisa eu tenho a certeza, de algo ou de alguém somos eternos prisioneiros, nem que seja dos nossos próprios sentimentos.

Quinta do Anjo, 30 de Abril de 2009

Diferenças sublimares entre a aldeia e a cidade:

Na aldeia, acordamos com o cantar do galo; na cidade, com o barulho dos carros.
Na aldeia, adormecemos com o cantar dos grilos e o romantismo do luar; na cidade, com o vozear dos vizinhos e a angústia das sombras.
Na aldeia, contamos as horas pelo relógio das Trindades; na cidade, pelo silvo das fábricas.
Na aldeia, admiramos o voar e ouvimos o cantar dos pássaros; na cidade, os pássaros estrebucham e piam taciturnos.
Na aldeia, ouvimos os silêncios e a própria voz; na cidade, apenas barulhos e a voz dos outros.
Na aldeia, adoramos a natureza; na cidade, poluímos o universo.
Na aldeia, semeamos pão; na cidade, pedras.
Na aldeia, fazemos amor no campo, sob a luz do Sol e da Lua; na cidade, na escuridão dos casebres.
Na aldeia, as montanhas escondem as paixões; na cidade , são expostas nas montras.
Na aldeia, andamos nos montes do etéreo; na cidade, nos vales da vida.
Na aldeia, espalhamos a semente da esperança; na cidade, colhemos desilusões.
Na aldeia, bebemos águas puras e virginais; na cidade, inquinadas e prostituídas.
Na aldeia, há estrelas; na cidade, luzes.
Na aldeia, plantamos raízes; na cidade, ilusões.
Na aldeia, morremos vivos; na cidade, vivemos mortos.

A excepção, na verdade dos idílios:

Na aldeia, tenho poesia; na cidade, tenho-te a ti!


Quinta do Anjo, Abril de 2009

Carlos Manuel Fernandes Gonçalves

2 comentários:

lagrima disse...

Viajei contigo neste mês de Abril..., adorei sobretudo voltar a calcorrear a subida do elevador da Gloria :))), apreciar Lisboa do Jardim de S. Pedro de Alcantara, olhar à minha esquerda e recordar os dois anos fantasticos que vivi nesse casarão, na altura um Lar de moças trabalhadoras e estudantes. E pergunto-me, será que alguma vez nos cruzamos por aí, naquele tempo?!... ;))
Beijos. Amanhã regresso :)))))))

lagrima disse...

Ah!..... encontrei o poema aMarTe!!! Já não sabia dele...Lolll
Um dia hás-de deixar-me estudar esse desassocego!

Bj.